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E, antes do fim, numa página dobrada no canto, eis que surge o impronunciável.
Um dia, lá p'ra frente e já velhos, cruzaremos olhares e voltaremos a imaginar com desejo quão grande poderia ter chegado a ser.
Já todos os sítios eram Domingos e todos os dias sítios estranhos.
Tenho o Sol nesta caixa de cartão. Não devo abri-la, posso cegar, podendo ouvir o que me queiras dizer. Diz-me tudo... ou então não digas nada (...do mar do mundo e traz-me uma sombra). Muito Sol faz mal, por isso o meti aqui. Não, só o convenci a entrar. Ninguém obriga o Sol numa caixa. Só lá fica se quiser. Disse-lhe que lá estava a Lua e a esta, que lá estava Sol.  Pega, leva-a contigo! E, na volta, dá corda ao relógio, já não se mexe há três dias. E traz mais velas - não só perdemos o dia, como escureceu a noite...
Deixei a porta aberta para o frio não entrar.
Cada pequeno som, cada ínfimo ruído na vastidão da casa fazia-a temer e repugnava-a.
Escrever seria juntar as suas às tantas palavras do mundo.
Gosto de estações de comboio, na hora do longo curso. As malas  acompanham sempre os seus donos; levam-nas ao bar, num pequeno-almoço rápido; ao quiosque, para a revista que distrairá a paisagem repetida; ao sanitário, onde o esforço pode ser algum, para que ambos se acomodem. Quem aguarda partir, é um passageiro em trânsito. E sta não é a sua rotina diária. Gosto das pessoas em stand-by da vida, dá-me paz. Não falo das que esperam o comboio para o emprego ou para ir à consulta, não. Essas estão metidas na sua vida, encaixadas, pagadas, tristes até. Em viagem, não gosto de conversas com o exterior. Vou sair agora, já estou na carruagem... Sim, obrigado!... Elas acompanham o percurso. Esperançosas, inocentes, sofrem percalços. Logo se vê, se não me vierem buscar, ligo-te a ti... As  intraconversas  têm outro interesse. Começam com banalidades para se irem aprofundando. Exorcizam-se memórias... Na véspera de ir para termas com meus pais, os meus amigos iam todo...
A razão da minha vontade de partir obriga.me a ficar.

Inverno

o vento que levou consigo as folhas do chão tornou-se neste ar parado,  quase sólido peito adentro em dolorosos fôlegos o sol pálido,  quase quente ilumina os bafos que se evadem,  quase tímidos desejando ser o fogo que crepita nas mãos frias,  quase mortas (para o Mário)

Dez tempos

Um dia longo. Dois passos depois, sentou-se no chão. As três lágrimas que chorara já tinham secado. Percorrera os quatro cantos do mundo, mas chegavam os cinco dedos da mão para contar a sua história. Trazia no braço um saco onde metera os seis ovos que lhe tinham dado. Seriam o seu jantar para os próximos sete dias. Tinha o corpo feito num oito e desejou com força as nove vidas de um gato. C om as dez badaladas na torre,  adormeceu por fim.
A angústia que sinto pela rapidez com que a noite chega é espantosamente conquistada pelo conforto que a completa escuridão provoca.
Nunca te vi, nem sei se algum dia te irei ver. As peças, no tabuleiro, ganham vida própria e segue cada uma o seu caminho, sem qualquer garantia de alguma vez encontrar alguma das outras. Deixo estas linhas caso nos desencontremos. Quero dizer que te amo; escape da carburação interior. O amor que me queima deve ser confessado. Amo-te!, para não explodir. Sei também que me amas e por isso somos livres para continuar o caminho. Penso em ti quando acordo. Rebolo para o outro lado e o tecido aconchega-me o corpo. E sinto-me feliz por saber que  tu  também és. Crio-te para que estejas presente. Recomponho-me, sigo em frente e continuo a viver o caminho que escolhi.

Solstício

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Como pude eu deixar passar que no dia 21 de Junho plantei um carvalho?! Cavei um buraco com uma enxada e as cruzes queixaram-se durante três dias e cinco horas. Depois retirei o carvalho do vaso e soltei-lhe as raízes com as minhas mãos. Acomodei-o na terra e reguei-o muito. No fim pus-lhe um nome. Chamei-lhe Bugalhó.
Da morte não tenho medo, tenho frio.
A morte é uma velhinha. O cabelo está apanhado na nuca e a mala de mão enfiada no braço. Uma vez vi-a, no portão da Pousada, à espera. Esteve ali bastante tempo. Respirava uma certa ansiedade sem, no entanto, olhar como quem procura ou antecipa a chegada de alguém. Simplesmente esperava. Analisou o tempo que faltava e nem relógio tinha. Abriu a pequena bolsa e dela tirou um fino pente de tartaruga, arrumou com ele os fios prateados de cabelo e guardou-o calmamente. A morte tem vaidade. Ali junto, sobre um bloco de granito, já no cimo das escadas, estava pousada uma gata, todo o tempo imóvel, sentada sobre as patas de trás. Antes do telefone tocar, lambeu, dolente, as patas. "Maria... o papá morreu." Quando olhei de novo, nem a velha nem a gata estavam já no lugar.
Hoje acordei cansada. Além de me custar a adormecer, passei o resto da noite a sonhar que não conseguia dormir. Que tormento!
UMA DE SETE «Um cão, eu sempre disse, é prosa; Um gato é um poema.» Jean Burden Abre a porta! Quero sair! Quero ser como os outros que vagabundeiam pela noite, comem do lixo, saltam os muros e perseguem as fêmeas. Quero agilidade no andar e apertar o coração de quem me atravesso à frente. Sonho em assustar-me com gente e fugir de todos os cães. Não me mimes, não me alimentes, não me tenhas como garantido sempre que entras em casa! Sinto que paro, morro. Abafo neste calor. Já quase não me mexo de tanto mimo, nesta prisão dourada. Escorraça-me! Chego a querer voar, subir ao telhado que me abrigou cada dia desta minha vida de sete que nunca mais termina. Dá-me o risco, o perigo, a oportunidade de morrer mais vezes. Quero um olho vazado e uma cicatriz na orelha. Quero miar a noite toda. Liberta-me! Dá-me a rua e o frio da noite. A Lua atravessou a noite húmida, quero ir chorar com ela. Abre aquela porta! Dá-me o meu destino! Acordou suada, o cabelo colado ao rosto. Levantou-se lenta...
“Mis pasos en esta calle Resuenan En otra calle” «Le pas du chat noir Son cerca de las dos de la madrugada, un viento frío se me cuela por la nuca, es sábado, la calle está desierta y silenciosa, y todo está a oscuras, bueno no todo en realidad, ahí está el rosa de los pétalos de las camelias alfombrando la calle, el contraste amarillo luminoso de una puerta que se abre para dejar salir a un gato. Un gato negro y común que no acierta a dar el primer paso, el paso que lo separe del hogar caliente y conocido, el paso que lo lleve al universo oscuro de una madrugada de sábado de enero. Sus ojos verán más ahora sobre el reflejo lunar de las piedras, sus esponjosas patitas acariciarán el frio crepuscular del empedrado portugués. Todo se desvanece como en un sueño, el gato, el espejo rosa de los pétalos sobre la calle empedrada y mojada, la luna, el paso del gato al salir de una casa. Pero no estoy soñando, porque siento el frío, porque el soplo del viento se me cuela por el cuello, y porque...
“Sufrían, cada fibra de mi cuerpo alcanzaba ese sufrimiento amordazado, un remoto señorío aniquilado, un tiempo de libertad en que el mundo había sido de los axolotl”. J. Cortázar «Bird Guhl Apenas sé cómo he llegado a esto, a esto que soy ahora, una especie de estado larvario que me sujeta al suelo, y me impide ponerme siquiera a dos patas. Sólo sé que ahora repto, yo que fui un pájaro en otra época, yo que veía desde las alturas. Este espacio, esta jaula mejor dicho, en la que vivo, se suponía que era el rincón ideal donde poder descansar de mi libertad conquistada y saciada, el lugar ideal desde donde poder observarme a mi mismo y no a los otros con tiempo, para volver asi a mi reino en las alturas más completo. Pero no, este rincón resultó ser una trampa, una trampa convertida en sepultura con el aire necesario para poder vivir eternamente. ¿Y ahora? ¿qué clase de vida me espera? Una vida larvaria, una vida en la que apenas necesito comer ni respirar, pues me basta una pequeña boca...