Mensagens

Deixei a porta aberta para o frio não entrar.
Cada pequeno som, cada ínfimo ruído na vastidão da casa fazia-a temer e repugnava-a.
Escrever seria juntar as suas às tantas palavras do mundo.
Gosto de estações de comboio, na hora do longo curso. As malas  acompanham sempre os seus donos; levam-nas ao bar, num pequeno-almoço rápido; ao quiosque, para a revista que distrairá a paisagem repetida; ao sanitário, onde o esforço pode ser algum, para que ambos se acomodem. Quem aguarda partir, é um passageiro em trânsito. E sta não é a sua rotina diária. Gosto das pessoas em stand-by da vida, dá-me paz. Não falo das que esperam o comboio para o emprego ou para ir à consulta, não. Essas estão metidas na sua vida, encaixadas, pagadas, tristes até. Em viagem, não gosto de conversas com o exterior. Vou sair agora, já estou na carruagem... Sim, obrigado!... Elas acompanham o percurso. Esperançosas, inocentes, sofrem percalços. Logo se vê, se não me vierem buscar, ligo-te a ti... As  intraconversas  têm outro interesse. Começam com banalidades para se irem aprofundando. Exorcizam-se memórias... Na véspera de ir para termas com meus pais, os meus amigos iam todo...
A razão da minha vontade de partir obriga.me a ficar.

Inverno

o vento que levou consigo as folhas do chão tornou-se neste ar parado,  quase sólido peito adentro em dolorosos fôlegos o sol pálido,  quase quente ilumina os bafos que se evadem,  quase tímidos desejando ser o fogo que crepita nas mãos frias,  quase mortas (para o Mário)

Dez tempos

Um dia longo. Dois passos depois, sentou-se no chão. As três lágrimas que chorara já tinham secado. Percorrera os quatro cantos do mundo, mas chegavam os cinco dedos da mão para contar a sua história. Trazia no braço um saco onde metera os seis ovos que lhe tinham dado. Seriam o seu jantar para os próximos sete dias. Tinha o corpo feito num oito e desejou com força as nove vidas de um gato. C om as dez badaladas na torre,  adormeceu por fim.