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Dez tempos

Um dia longo. Dois passos depois, sentou-se no chão. As três lágrimas que chorara já tinham secado. Percorrera os quatro cantos do mundo, mas chegavam os cinco dedos da mão para contar a sua história. Trazia no braço um saco onde metera os seis ovos que lhe tinham dado. Seriam o seu jantar para os próximos sete dias. Tinha o corpo feito num oito e desejou com força as nove vidas de um gato. C om as dez badaladas na torre,  adormeceu por fim.
A angústia que sinto pela rapidez com que a noite chega é espantosamente conquistada pelo conforto que a completa escuridão provoca.
Nunca te vi, nem sei se algum dia te irei ver. As peças, no tabuleiro, ganham vida própria e segue cada uma o seu caminho, sem qualquer garantia de alguma vez encontrar alguma das outras. Deixo estas linhas caso nos desencontremos. Quero dizer que te amo; escape da carburação interior. O amor que me queima deve ser confessado. Amo-te!, para não explodir. Sei também que me amas e por isso somos livres para continuar o caminho. Penso em ti quando acordo. Rebolo para o outro lado e o tecido aconchega-me o corpo. E sinto-me feliz por saber que  tu  também és. Crio-te para que estejas presente. Recomponho-me, sigo em frente e continuo a viver o caminho que escolhi.

Solstício

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Como pude eu deixar passar que no dia 21 de Junho plantei um carvalho?! Cavei um buraco com uma enxada e as cruzes queixaram-se durante três dias e cinco horas. Depois retirei o carvalho do vaso e soltei-lhe as raízes com as minhas mãos. Acomodei-o na terra e reguei-o muito. No fim pus-lhe um nome. Chamei-lhe Bugalhó.
Da morte não tenho medo, tenho frio.
A morte é uma velhinha. O cabelo está apanhado na nuca e a mala de mão enfiada no braço. Uma vez vi-a, no portão da Pousada, à espera. Esteve ali bastante tempo. Respirava uma certa ansiedade sem, no entanto, olhar como quem procura ou antecipa a chegada de alguém. Simplesmente esperava. Analisou o tempo que faltava e nem relógio tinha. Abriu a pequena bolsa e dela tirou um fino pente de tartaruga, arrumou com ele os fios prateados de cabelo e guardou-o calmamente. A morte tem vaidade. Ali junto, sobre um bloco de granito, já no cimo das escadas, estava pousada uma gata, todo o tempo imóvel, sentada sobre as patas de trás. Antes do telefone tocar, lambeu, dolente, as patas. "Maria... o papá morreu." Quando olhei de novo, nem a velha nem a gata estavam já no lugar.
Hoje acordei cansada. Além de me custar a adormecer, passei o resto da noite a sonhar que não conseguia dormir. Que tormento!