Mensagens

- Eles sem mim não podem ir - murmurou, enquanto ela sentia as suas gotas regulares sobre o dorso quente. Partiriam nessa madrugada e, em jeito de despedida, fundia-se nela para a levar marcada na pele. - Vou ter mesmo de ir - dizia para si mesmo, sem com isso abrandar o ritmo certo como quem bebe sôfrego, calando a sede. - Mas eu volto - concluiu tranquilizante. Quase disse que o esperaria, mas pareceu-lhe, mais do que um cliché de romance de cordel, uma óptima forma de trair a sua nova atitude, ganha à força de muitas lágrima e dor no peito. - Tens de ir. - Não consigo - e repousou sobre ela, beijando-lhe a nuca, enquanto lhe segurava o cabelo como uma crina.

Pedir é perder

Não te peço nada. Prefiro tentar adaptar-me em silêncio. Deixar-te-ei voar. A tua não é a minha vida. Respeita-me somente. Fala-me sempre a verdade. Avisa-me quando esmorecer o teu querer. Permite que me afaste, quando precisares de palavras. Eu voltarei, com as ideias arrumadas e o mesmo amor por ti.
Queria querer-te menos E não é demais o quanto te quero
Puxou uma cadeira e sentou-se. Olhou o mar... tinha prata. A ganância tomou-o. Correu e mergulhou. A prata fugia-lhe das braçadas. As ondas vieram. Lutou, olhou o céu e percebeu a Lua Antes de morrer.
Toda a noite tentara, em vão, ter a sua atenção e, pelo contrário, assistiu ao exercício de um alucinante fascínio sobre todos os presentes. Tinha-a ainda chamado de parte, procurando “conversar” enquanto ela lhe atirava com um discurso assanhado e irónico, evitando sempre o seu corpo nu. Só daqui saio quando acabar de beber a minha cerveja! Podeis todos ir onde quiserdes que eu daqui não arredo. Tá-se aqui tão bem... – recostou-se na cadeira e deu três grandes goladas na garrafa. Todos se aglomeravam já próximo da saída, quando ele se aninhou junto dela pedindo-lhe que os acompanhasse - Ninguém vai aqui ficar... Também não te quero aqui, só preciso da companhia desta cerveja, vai. A música tá boa, a bebida melhor ainda, que mais quero eu? Vai!... – repetiu olhando-o nos olhos, transbordando sedução. Tê-lo aninhado junto de si fazia-a sentir-se irresistível e senhora da situação. Na verdade, não era só impressão sua. Ele sentia-se de facto enlouquecer. Agora, era somente seu aquele olh...

Momento

O momento adivinhava-se quente e estava muito próximo. O calor começou a queimar-lhe a coragem. A coragem começou a derreter e crescia nela o receio. Temia não conseguir uma vez mais utilizar as palavras que melhor expressariam o seu desejo. Não queria impor-se. Tinha medo de que isso pudesse afastá-lo de si. Dias antes ele tinha-lhe telefonado. À distância, ela lá ia conseguindo dizer que o queria num abraço e ele parecia sofrer de um mal pior do que o seu, receando dizer o que sentia. Chegou o dia. Ela abraçou-o, ele tocou-a com delicadeza e, mais uma vez sem palavras, adormeceram juntos depois de um momento de amor.
Ofereceste-me a tua companhia, diluindo em mim o teu tempo. Trago cravados no peito os abraços e o aconchego do teu colo. Agora que partes, lamento o abraço que não te dei quando ergueste para mim os olhos que, mesmo tristes, sorriram. Sabe agora que foste a última amante de Paco Gonzalez, forçado agora a professar o fim.