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Queria querer-te menos E não é demais o quanto te quero
Puxou uma cadeira e sentou-se. Olhou o mar... tinha prata. A ganância tomou-o. Correu e mergulhou. A prata fugia-lhe das braçadas. As ondas vieram. Lutou, olhou o céu e percebeu a Lua Antes de morrer.
Toda a noite tentara, em vão, ter a sua atenção e, pelo contrário, assistiu ao exercício de um alucinante fascínio sobre todos os presentes. Tinha-a ainda chamado de parte, procurando “conversar” enquanto ela lhe atirava com um discurso assanhado e irónico, evitando sempre o seu corpo nu. Só daqui saio quando acabar de beber a minha cerveja! Podeis todos ir onde quiserdes que eu daqui não arredo. Tá-se aqui tão bem... – recostou-se na cadeira e deu três grandes goladas na garrafa. Todos se aglomeravam já próximo da saída, quando ele se aninhou junto dela pedindo-lhe que os acompanhasse - Ninguém vai aqui ficar... Também não te quero aqui, só preciso da companhia desta cerveja, vai. A música tá boa, a bebida melhor ainda, que mais quero eu? Vai!... – repetiu olhando-o nos olhos, transbordando sedução. Tê-lo aninhado junto de si fazia-a sentir-se irresistível e senhora da situação. Na verdade, não era só impressão sua. Ele sentia-se de facto enlouquecer. Agora, era somente seu aquele olh...

Momento

O momento adivinhava-se quente e estava muito próximo. O calor começou a queimar-lhe a coragem. A coragem começou a derreter e crescia nela o receio. Temia não conseguir uma vez mais utilizar as palavras que melhor expressariam o seu desejo. Não queria impor-se. Tinha medo de que isso pudesse afastá-lo de si. Dias antes ele tinha-lhe telefonado. À distância, ela lá ia conseguindo dizer que o queria num abraço e ele parecia sofrer de um mal pior do que o seu, receando dizer o que sentia. Chegou o dia. Ela abraçou-o, ele tocou-a com delicadeza e, mais uma vez sem palavras, adormeceram juntos depois de um momento de amor.
Ofereceste-me a tua companhia, diluindo em mim o teu tempo. Trago cravados no peito os abraços e o aconchego do teu colo. Agora que partes, lamento o abraço que não te dei quando ergueste para mim os olhos que, mesmo tristes, sorriram. Sabe agora que foste a última amante de Paco Gonzalez, forçado agora a professar o fim.

Acta de um serão louco

Um disse que nasceu da mãe por exorcismo, outro, que queria ir à discoteca onde o Padre Fontes não ia; em vez disso, foi parar a um tasco onde a dona lhe disse para estar à vontade pois ela ia deitar-se, mas a filha ficava ali toda a noite para o servir. Nessa tarde, quando acordou, ouvira uma voz familiar que logo reconheceu: a sua irmã e o marido estavam na tenda ao lado, discutindo para quem quisesse ouvir. Este afirmou ainda que se um outro fosse com ele à festa do Avante, lhe apresentaria duas "gajas" do SIS. Como se não bastasse, enfiaram-me uma semente na orelha, na esperança de que me crescesse cabelo de erva, com a vantagem de que sempre que fosse cortado cresceria mais e mais.No final todos concordaram em que as recaídas são sempre boas. (serão de Agosto/05)

Cavalete

Esperava por ele no atelier quando reparou que, em exposição sobre o cavalete, estava o seu próprio retrato. Telma entrou, cumprimentou Camila e com dois dedos contornou a tela, apreciando a pintura. Paralisada, Camila observou o gesto, temendo algum comentário a propósito. Uma noite depois, ele pegou-lhe na mão e levou-a à cozinha, onde, para sua surpresa, lhe foi pedido que apreciasse, exposto no cavalete, o retrato de Telma. Só então percebeu. Para alívio da própria culpa, Tó arranjara uma forma genial de cruzar as suas conquistas, podendo, simultaneamente, usufruir da sua companhia. Chamava a presa ao covil do predador, usando como isco o seu último trabalho. Quando a vítima chegava a sua casa, no cavalete, perfilado, estava preparado o retrato pintado de outra.