Correu por entre as rajadas de vento, tão fortes e determinadas. Urgia encerrar as portadas do salão. Uma invasão tão brusca e inesperada iria deteriorar importantes detalhes no seu interior. Entrou desenfreado, abrindo as portas de par em par, para impedir que o ar louco e seco empoasse os veludos. Cortinas delicadas bailavam, inocentes virgens, encantadas pelo hálito morno; algumas voavam já, impúdicas, pelas janelas escancaradas. As folhas fugidas da tília entrelaçavam-se amorosas nas cordas do velho piano. Tudo tem de ser protegido, pensava, enquanto resgatava a última louca princesa da mais fina seda.
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Hoje cheguei atrasada ao trabalho. E saí de casa com tempo! Fui ao supermercado. Primeiro apanhei uma fila estúpida a caminho da rotunda, por causa da manifestação da CGTP. Toda a gente fazia questão de perguntar ao polícia qualquer coisa e depois não havia maneira de se sair do sítio. Pus o carro no parque de estacionamento e dei então uma saltada ao supermercado. Como já sabia o que queria, era só chegar, pegar, pagar e desaparecer dali para fora. Mas quando chegou a altura de pagar tinha quatro senhoras à minha frente cheias de tralhice e a menina da caixa não estava onde devia estar: na caixa. Estava no bar a dar um copinho de água a uns putos que, vim depois a perceber, estavam com duas das senhoras da fila. A menina lá veio (dava pra ver que não lhe estava a agradar qualquer coisa) e depois percebi o que deveria ser: os putos, eram, além de hiperactivos, hiper-ruidosos, com especial destaque para um deles. Corriam, gritavam... enfim. E as mãezinhas nada. Era como se nada fosse. ...
alucínio in extremis
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Formiga que passa e repassa e percorre o corpo todo da cabeça até aos pés. A fúria incontida mas também mal percebida que sempre sobe e desce e desce e sobe, percorre. Chega, basta- fujo. Não desisto... fujo. Eles vêm aí. Não quero saber. Isto de automático já pouco tem, de tanta comichão que anda pelo ar. A comichão tem asas. Logo de manhã, tem asas. E não há quem lhas corte. Vamos ver se me chamam. Não, não vão chamar.
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Quando a criatividade emperra, recorro à escrita automática. Desta vez, dei-lhe uns toques, poucos, mais a nível da estética linguística, para vos mostrar. Foi assim: A criatividade fugiu-lhe por entre os dedos finos e longos, como os longos minutos que espera por quem nunca chega a chegar. Bater nos nós das árvores, altas e finas, que badalam vinte e cinco vezes o som do relógio de cucu, sem sequer saberem o porquê de o fazer com tamanha preocupação. Depois, vestiram de folhagem seca todos os tapetes da região, nunca permitindo que se aproximasse a hora de levantar o voo das cegonhas que, com os perús, sonharam com outras paragens. Só isto e acompanhar as ideias e agrilhoá-las a este papel e elas olham já muito saudosas para as que conseguiram escapar. Invejosas, pensou o pernilongo que tentava saltitar, porque antes vira alguém fazê-lo. Fora depois interrompida pela entrada do som do telefone. Parou. Escrever e ouvir ao mesmo tempo não faziam as suas delícias, o que não significava q...
Para sempre
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Com o ar doce e morno, Maio traz também a memória da eterna perda. Na pedra das paredes aquece o brilho das recordações. O portão e o empedrado da rua, fronteiras com o exterior, falam-lhe em silêncio. A chegada que não chega e a despedida para sempre passaram a sombrear aquele lugar carregado de tantas alegrias e vitórias. O lugar da sua última liberdade, onde o Sol tudo doura e a vida flui, encheu-se de toda a saudade.